sábado, 6 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
serpentes de fogo
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Carlos Couto
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009
poemas corpóreos
poemas de tecido úmido
no espelho teu sorriso
meus lábios escrevem
poemas de fibras lisas
na enseada de teu pescoço
meus dedos escrevem
poemas de carne clara
na aurora de teus seios
minha língua escreve
poemas de pele morna
no leito de teu ventre
meu corpo escreve
poemas de flancos íntimos
na erupção de teus desejos
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Carlos Couto
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suicídio controlado
fina navalha ou algo que o valha
romper o imundo sulco da morte
tatuar no corpo puro corte profundo
esvair a vertente do sangue azedo
o negro suco de lama em profusão
letárgica e patética confusão
daquele que deu cabo à vida vazia
por controlar-se em demasia
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Carlos Couto
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inclemência
não perdoo não perdoe não tem perdão
para o poema pensado
e não escrito
a louca voz dos signos
expressada/esquecida
apodrecendo no jardim da memória
não perdoo não perdoe não tem perdão
para o amor conquistado
e não desfrutado
o doce silêncio dos anjos
sussurrado/ignorado
exaurindo no campo da alma
não perdoo não perdoe não tem perdão
para a vida granjeada
e não vivida
o denso sopro da história
lançado/engolido
oxidando no oceano do tempo
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Carlos Couto
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
previsões incertas
Quando a professora perguntava aquele tradicional "O que você vai ser quando crescer?", uns respondiam que seriam médicos, outros bombeiros, jogador de futebol, aeromoça, enfermeira, professora... Eu simplesmente respondia que ia ser gente. O tempo passou e, assim como eu, muitos tomaram outros rumos na vida.
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Carlos Couto
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
cântico
arrasto um tempo remoto
e trago deuses prepotentes
que zombam dos deuses alheios
venho de perto
abrigo um tempo recente
e trago anjos cobertos de bondade
em comunhão com os anjos dos outros
chego aqui
habito esse agora
e o sagrado que há em mim
curva-se ante à luz do Deus verdadeiro
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Carlos Couto
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
espelho & anti reflexo (storta)
nem sempre venho mas se o faço
chego tarde e às más horas
ando distraído sempre apressado
e nem me vejo passando através do tempo
sou um corpo perdido dentro de um espírito em equilíbrio
esparramo-me no mundo e encolho-me em meus caminhos
conquisto escárnios amigáveis e admiração de entes rivais
repulsivo aos que me cercam sou flertado por desejos distantes
cultivo uma ignorância refinada enquanto esbarro em [entendimentos banais
sou tímido na solidão e grotesco no passeio público
sinto-me em casa nos lugares mais estranhos
e totalmente confuso no aconchego do meu eu
************
Damáris Lopes
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Carlos Couto
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
o real da abstração
teus lábios são reais,
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sábado, 24 de outubro de 2009
memória da pele
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Carlos Couto
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
malha confusa
ouço fantasmas
costurando cerzindo tecendo minha insônia
uma malha confusa
de retalhos e fios de amargura
arrasto o cansaço
no tédio desperto bocejo
avanço na noite sonhando acordado
ruminando o bagaço das horas
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Carlos Couto
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009
A Ascensão do Contraverbo
venho de um tempo
em que as palavras
cumpriam em plenitude
seus fundamentais propósitos
venho de um tempo
em que o verbo
era efetivamente explorado
trazido à luz do entendimento
venho de um tempo
em que o dizer
era instrumento do transmitir
reflexo avesso aquilo que confunde
venho de um tempo
que já não existe
na memória coletiva
parida em outro tempo
hoje tudo parece-me indecifrável
as palavras já não dizem nem expressam
o que anseiam
ou que ousam sugerir
o verbo perdeu sua objetiva função
extraviado em atalhos sombrios
assumindo formas confusas
e sintaxes complexas
a comunicação evoluiu
o humano ascendeu
conquistou o supérfluo
a estética sufocou o valor
a comunicação ascendeu
o humano evoluiu
cercou-se de vazio
o egoísmo engoliu o entendimento
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sábado, 10 de outubro de 2009
fome vulgar
de uma fome vulgar
comer tua carne
e sorver teus instintos
a história sempre se repete
mas todo gozo
é uma primeira vez
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Carlos Couto
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primeiro exercício para tentar ser Deus
(poesia concebida após uma conversa com Solivan no Capelle em 20/06/2008, a respeito do poeta ateu)
admito que não entendo
se entendo não aceito
e se aceito eu não concordo
para mim é inconcebível
o homem fazer poesia
e não acreditar em Deus
ele acredita em mar em colina
em árvore em terra
em fogo em peixe
estrela e até em gente acredita
mas não consegue engolir
é fábula Deus existir
a inteligência concebe
a soberba se eleva
mas certamente há algo
soberbamente acima da noção
do que é inteligência soberba
e mesmo do que é estar acima
fazer versos como os teus
alguns bem conseguem
manusear instrumentos
decifrar códigos
entender estratégias
traçar mapas e rotas
caçar pescar plantar
procedimentos do humano comum
mas junte elementos da natureza
gases estruturas carbonos
arranjos moleculares
fusões químicas físicas
e então construa
uma pedra ou uma flor
e então se conseguires
aí então eu te direi:
- Tu sim és Deus!
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Carlos Couto
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construção civil
com tijolo argamassa
e seiva de alfazema
aprumei a métrica
preguei estrofes
calfinei sem rima
e pintei com mel
as paredes de meu dia
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Carlos Couto
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
Os deuses, os pastores e um salmo
I
sobre os deuses
estes homens tem um deus,
tem um altar e uma prece,
e este deus têm deuses seus
que o próprio Deus desconhece
II
sobre os anjos
sobre o campo das idéias
e dos espíritos dos homens
as estações dos anjos
o vento a chuva e a própria aridez
os anjos são os pastores de Deus,
os anjos, e não os homens
III
sobre o bem
também não resistais ao bem;
mas a qualquer que te acarinhar
na face direita,
oferece também a outra,
pois o carinho é a ética do sentimento
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rotaleatória
I
rota seca
rabisquei minha rota
na palma da mão
ando sujo de mim
mas não me perco
II
rota de chuva
tinha a rota desenhada
na argila da palma da mão
andava sujo de mim
mas tinha um norte
mas veio tua fome de loba
e tua língua de chuva
e devorou as pétalas todas
da minha rosa dos ventos
agora saciado e confuso
abro um sorriso de manhã
feito um menino que avistou
pela primeira vez o arco-íris
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Carlos Couto
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sábado, 3 de outubro de 2009
a mais recente criação...
Sei que até pode tornar-se lugar comum esta expressão de contentamento pelo nascimento de um filho, mas tudo bem, vamos lá, eu mesmo sou uma pessoa muito comum e este sentimento, mesmo que previsível, é extremamente forte e gratificante.
Esta sensação comum vem carregada de responsabilidade e comprometimento, satisfação e gratidão.
Gibran expressou com verdadeira propriedade um entendimento maior sobre nossa ligação com os filhos:
"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós."
Obs.: Como a postagem de comentários estava com problemas no Blog, posteriormente postei todos comentários e mensagens recebidos about... Muito obrigado!
!
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Carlos Couto
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
sombras avessas
sombras móbiles de gente
noite espectro ardendo em chamas
sentimento é sangue da alma
fina medula do espírito reverso
gozo o gozo de explodir sorriso
em rastro de fogo desenho minhas rotas
perdido confuso quase sempre fujo
para lugares onde sinceramente espero
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Carlos Couto
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
engulo a história do mar
passeio vagueio por sobre a azulínea
vegetação do campo do mar e embriago meus olhos com o marinho aço evanescente
vôo sobrevôo por sobre o branco
espalhado espelhado areia da praia
contrito levito meus pés não tocam esta
farinha sedimentada do tempo conchas
trituradas misturadas com o calcário-basalto das dunas que a brisa suspende e espirra
rio sorrio o teu hálito de salitre bafeja morno contra meu hálito de boca seca
meus olhos marejam e agora são alvos
dos dardos da maresia que o vento arremessa
arregalo inalo a água pastosa e entorpeço-me com o brilho-dourado que desce em crostas
espessas pela minha garganta de marujo de última viagem
sinto pressinto a vertigem e sugo um
fragmento da história deste mar que
rapidamente é absorvida por meu espírito
sorvo absorvo o refluxo de suas marés e este processo catalítico acelera a inconstância de meu espírito minha alma minhas vibrações
minhas impressões e meus sentidos mais sutis
passo compasso de vago alheamento
à condição de passageiro absorto
absorvido embebecido embevecido pelo
magno magnetismo oceânico
vasculho mergulho nesta massa
morna-aquosa e já sinto-me um bento-animal
visto revisto minha couraça cingida de escamas e viscosos anelos que inaugura sua dispersão no campo abissal onde pasto
algas verdes azuis macroalgas
sorvo
ostras caramujos moluscos hipocampos
medusas crustáceos anêmonas hidrocorais
digiro
galés fragatas caravelas botes cargueiros
jangadas galeões pesqueiros negreiros
bebo
a realeza escravos marinheiros assírios
corsários mercenários mercantes bárbaros
engulo
o nível das marés o fragor das tempestades
o amplitude da calmaria o crispar das ondas
III
mormente é meu perispírito que flui
para dentro da história deste mar
enquanto ele engole toda minha história
embriagado afogado de mar
eu já não sou mais eu
agora eu também sou o mar
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Carlos Couto
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