sábado, 6 de fevereiro de 2010

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

serpentes de fogo

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meus desejos
abraçam teu corpo
como mãos
invadem teus flancos
são serpentes de fogo

lambendo tua existência

teu sol é uma romã madura
de sumo suspeito agridoce
que brota no vão
entre tuas coxas

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

poemas corpóreos

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meus olhos escrevem
poemas de tecido úmido
no espelho teu sorriso

meus lábios escrevem
poemas de fibras lisas
na enseada de teu pescoço

meus dedos escrevem
poemas de carne clara
na aurora de teus seios

minha língua escreve
poemas de pele morna
no leito de teu ventre

meu corpo escreve
poemas de flancos íntimos
na erupção de teus desejos

suicídio controlado

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era um homem de impulsos cortados
fina navalha ou algo que o valha
romper o imundo sulco da morte
tatuar no corpo puro corte profundo
esvair a vertente do sangue azedo
o negro suco de lama em profusão
letárgica e patética confusão
daquele que deu cabo à vida vazia
por controlar-se em demasia

inclemência

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não perdoo não perdoe não tem perdão
para o poema pensado
e não escrito
a louca voz dos signos
expressada/esquecida
apodrecendo no jardim da memória

não perdoo não perdoe não tem perdão
para o amor conquistado
e não desfrutado
o doce silêncio dos anjos
sussurrado/ignorado
exaurindo no campo da alma

não perdoo não perdoe não tem perdão
para a vida granjeada
e não vivida
o denso sopro da história
lançado/engolido
oxidando no oceano do tempo

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

previsões incertas

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Quando a professora perguntava aquele tradicional "O que você vai ser quando crescer?", uns respondiam que seriam médicos, outros bombeiros, jogador de futebol, aeromoça, enfermeira, professora... Eu simplesmente respondia que ia ser gente. O tempo passou e, assim como eu, muitos tomaram outros rumos na vida.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

cântico

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venho de longe
arrasto um tempo remoto
e trago deuses prepotentes
que zombam dos deuses alheios

venho de perto
abrigo um tempo recente
e trago anjos cobertos de bondade
em comunhão com os anjos dos outros

chego aqui
habito esse agora
e o sagrado que há em mim
curva-se ante à luz do Deus verdadeiro

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

espelho & anti reflexo (storta)

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nem sempre venho mas se o faço
chego tarde e às más horas

ando distraído sempre apressado
e nem me vejo passando através do tempo

sou um corpo perdido dentro de um espírito em equilíbrio
esparramo-me no mundo e encolho-me em meus caminhos

conquisto escárnios amigáveis e admiração de entes rivais
repulsivo aos que me cercam sou flertado por desejos distantes

cultivo uma ignorância refinada enquanto esbarro em [entendimentos banais
sou tímido na solidão e grotesco no passeio público

sinto-me em casa nos lugares mais estranhos
e totalmente confuso no aconchego do meu eu


************


Nem sempre venho mas se o faço
chego tarde e às "boas" horas.
Afinal, se eu não tardasse talvez
colhesse apenas sementes dos teus
dizeres. Como tardo, colho flores
e saborosos frutos.


Sei que cultivo uma ignorancia
refinada, mas verdade seja frisada,
é ela que me instiga chegar até voce e admirá-lo.

Damáris Lopes 

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

o real da abstração

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a lua é uma abstração,
as plêiades, os elementos cósmicos,
os longes, tudo abstração...

o real, para mim,
é o tangível, o táctil,
o palpável ou, ao menos,
o que parece estar próximo


teus lábios são reais,
teus beijos, abstração...

sábado, 24 de outubro de 2009

memória da pele

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tolo ,
vim de um braço de mar
mistura de sol e gente
o vento na enseada da memória


estranho,
aportei na terra branca
sem história nem bagagem
a alma no exílio do silêncio



negro,
encarei os olhos de gelo
expulso além do entendimento
uma árvore na margem do desprezo


sozinho,
lambo o sal das cicatriz
e arrasto a pedra bruta dos dias
um estrangeiro em mim mesmo

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

malha confusa

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ouço fantasmas
costurando cerzindo tecendo minha insônia
uma malha confusa
de retalhos e fios de amargura

arrasto o cansaço
no tédio desperto bocejo
avanço na noite sonhando acordado
ruminando o bagaço das horas

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Ascensão do Contraverbo

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venho de um tempo
em que as palavras
cumpriam em plenitude
seus fundamentais propósitos

venho de um tempo
em que o verbo
era efetivamente explorado
trazido à luz do entendimento

venho de um tempo
em que o dizer
era instrumento do transmitir
reflexo avesso aquilo que confunde

venho de um tempo
que já não existe
na memória coletiva
parida em outro tempo

hoje tudo parece-me indecifrável
as palavras já não dizem nem expressam
o que anseiam
ou que ousam sugerir

o verbo perdeu sua objetiva função
extraviado em atalhos sombrios
assumindo formas confusas
e sintaxes complexas

a comunicação evoluiu
o humano ascendeu
conquistou o supérfluo
a estética sufocou o valor

a comunicação ascendeu
o humano evoluiu
cercou-se de vazio
o egoísmo engoliu o entendimento

sábado, 10 de outubro de 2009

fome vulgar

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alimentar o desejo
de uma fome vulgar
comer tua carne
e sorver teus instintos

a história sempre se repete
mas todo gozo
é uma primeira vez

primeiro exercício para tentar ser Deus

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(poesia concebida após uma conversa com Solivan no Capelle em 20/06/2008, a respeito do poeta ateu)


admito que não entendo
se entendo não aceito
e se aceito eu não concordo
para mim é inconcebível 

o homem fazer poesia
e não acreditar em Deus

ele acredita em mar em colina
em árvore em terra
em fogo em peixe
estrela e até em gente acredita
mas não consegue engolir
é fábula Deus existir

a inteligência concebe
a soberba se eleva
mas certamente há algo
soberbamente acima da noção
do que é inteligência soberba
e mesmo do que é estar acima

fazer versos como os teus
alguns bem conseguem

manusear instrumentos
decifrar códigos
entender estratégias
traçar mapas e rotas
caçar pescar plantar
procedimentos do humano comum
mas junte elementos da natureza
gases estruturas carbonos
arranjos moleculares
fusões químicas físicas
e então construa
uma pedra ou uma flor
e então se conseguires
aí então eu te direi:
- Tu sim és Deus!

construção civil

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construí um poema
com tijolo argamassa
e seiva de alfazema

aprumei a métrica
preguei estrofes
reboquei sonetos
calfinei sem rima
e pintei com mel
as paredes de meu dia



sombras avessas
Sáb, 17 de Outubro de 2009

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Os deuses, os pastores e um salmo

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I
sobre os deuses


estes homens tem um deus,
tem um altar e uma prece,
e este deus têm deuses seus
que o próprio Deus desconhece




II
sobre os anjos


sobre o campo das idéias
e dos espíritos dos homens
as estações dos anjos
o vento a chuva e a própria aridez


os anjos são os pastores de Deus,
os anjos, e não os homens




III
sobre o bem


também não resistais ao bem;
mas a qualquer que te acarinhar
na face direita,
oferece também a outra,
pois o carinho é a ética do sentimento

rotaleatória

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I
rota seca


rabisquei minha rota
na palma da mão
ando sujo de mim
mas não me perco




II
rota de chuva



tinha a rota desenhada
na argila da palma da mão
andava sujo de mim
mas tinha um norte


mas veio tua fome de loba
e tua língua de chuva
e devorou as pétalas todas
da minha rosa dos ventos


agora saciado e confuso
abro um sorriso de manhã
feito um menino que avistou
pela primeira vez o arco-íris

sábado, 3 de outubro de 2009

a mais recente criação...

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Sei que até pode tornar-se lugar comum esta expressão de contentamento pelo nascimento de um filho, mas tudo bem, vamos lá, eu mesmo sou uma pessoa muito comum e este sentimento, mesmo que previsível, é extremamente forte e gratificante.

Esta sensação comum vem carregada de responsabilidade e comprometimento, satisfação e gratidão.

Gibran expressou com verdadeira propriedade um entendimento maior sobre nossa ligação com os filhos:



"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós."

Obs.: Como a postagem de comentários estava com problemas no Blog, posteriormente postei todos comentários e mensagens recebidos about... Muito obrigado!



!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

sombras avessas

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sombras móbiles de gente
noite espectro ardendo em chamas
sentimento é sangue da alma
fina medula do espírito reverso
gozo o gozo de explodir sorriso
em rastro de fogo desenho minhas rotas
perdido confuso quase sempre fujo
para lugares onde sinceramente espero 

ao menos ser encontrado

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

engulo a história do mar

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I
passeio vagueio por sobre a  azulínea
vegetação do campo do mar e embriago meus olhos com o marinho aço evanescente
vôo  sobrevôo  por sobre o branco
espalhado espelhado areia da praia
contrito levito meus pés não tocam esta
farinha sedimentada do tempo conchas
trituradas misturadas com o calcário-basalto das dunas que a brisa suspende e espirra
rio sorrio o teu hálito de salitre bafeja morno contra meu hálito de boca seca
meus olhos marejam e agora são alvos
dos dardos da maresia que o vento arremessa
arregalo inalo a água pastosa e entorpeço-me com o brilho-dourado que desce em crostas
espessas pela minha garganta de marujo de última viagem

sinto pressinto a vertigem e sugo um
fragmento da história deste mar que
rapidamente é absorvida por meu espírito
sorvo absorvo o refluxo de suas marés e este processo catalítico acelera a inconstância de meu espírito minha alma minhas vibrações
minhas impressões e meus sentidos mais sutis


II
passo compasso de vago alheamento
à condição de passageiro absorto
absorvido embebecido embevecido pelo
magno magnetismo oceânico
vasculho mergulho nesta massa
morna-aquosa e já sinto-me um bento-animal
visto revisto minha couraça cingida de escamas e viscosos anelos que inaugura sua dispersão no campo abissal onde pasto
algas verdes azuis macroalgas

sorvo
ostras caramujos moluscos hipocampos
medusas crustáceos anêmonas hidrocorais
digiro
galés fragatas caravelas botes cargueiros
jangadas galeões pesqueiros negreiros
bebo
a realeza escravos marinheiros assírios
corsários mercenários mercantes bárbaros
engulo
o nível das marés o fragor das tempestades
o amplitude da calmaria o crispar das ondas

III
mormente é meu perispírito que flui
para dentro da história deste mar
enquanto ele engole toda minha história

embriagado afogado de mar
eu já não sou mais eu
agora eu também sou o mar